DII e Gravidez: Novas Recomendações do Consenso AGA 2025

DII e Gravidez: Novas Recomendações do Consenso AGA 2025

Nesta edição da nossa newsletter, vamos abordar o consenso mais recente da American Gastroenterological Association (AGA) sobre o manejo da DII em gestantes e lactantes — uma leitura essencial para todos que acompanham mulheres em idade fértil com doença de Crohn ou retocolite ulcerativa.

1. Fatores Maternos

1.1 Fertilidade

Mulheres com DII em remissão geralmente apresentam taxas de fertilidade semelhantes à população geral. No entanto, a atividade da doença, cirurgia pélvica (especialmente com anastomose ileal-pouch-anal) e medos infundados podem reduzir a fertilidade espontânea e o desejo reprodutivo.

1.2 Pré-concepção

É essencial que a concepção ocorra durante remissão clínica e laboratorial. O acompanhamento pré-natal deve incluir aconselhamento multidisciplinar com gastroenterologista, obstetra de alto risco, nutricionista e revisão de medicações e vacinação (ex. zoster, hepatite B, rubéola). O uso de ácido fólico (pelo menos 1 mg/dia) deve ser iniciado 3 meses antes da concepção, podendo chegar a 5 mg/dia em usuárias de sulfassalazina.

1.3 Manejo da Gravidez

A gravidez não deve ser considerada uma contraindicação ao tratamento da DII. A monitorização clínica, laboratorial (PCR, calprotectina fecal) e, quando necessário, endoscópica (preferencialmente com sigmoidoscopia sem sedação) deve ser realizada conforme atividade da doença.

1.4 Doença em Atividade

A atividade da doença é o principal fator de risco modificável para desfechos obstétricos adversos. Deve-se evitar descontinuação de medicamentos eficazes e iniciar tratamento precoce em casos de reativação. A corticoterapia sistêmica pode ser utilizada em crises moderadas a graves.

1.5 Medicações Durante a Gravidez

A maioria das medicações de manutenção da DII é considerada segura na gestação:

– Seguras: mesalazina, sulfassalazina, tiopurinas (azatioprina, 6-MP), anti-TNFs (infliximabe, adalimumabe, certolizumabe), vedolizumabe, ustecinumabe.
– De uso cauteloso: corticosteroides sistêmicos, preferindo prednisona; metotrexato é contraindicado.
– JAK inibidores e ozanimode: Contraindicados durante a gestação e devem ser descontinuados com antecedência antes da concepção.

1.6 Amamentação

A maioria das terapias para DII é compatível com a lactação, incluindo mesalazina, azatioprina, anti-TNFs, vedolizumabe e ustecinumabe. O certolizumabe, pela baixa transferência ao leite, é considerado o mais seguro entre os biológicos. Corticoides devem ser usados com atenção à dose e tempo entre a administração e a amamentação. Metotrexato, ciclosporina, tacrolimo, tofacitinibe e ozanimode são contraindicados.

1.7 Eventos Adversos na Gestação

Mulheres com DII ativa apresentam maior risco de:


– Aborto espontâneo

– Parto prematuro

– Restrição do crescimento fetal

– Baixo peso ao nascer

– Pré-eclâmpsia e cesariana emergencial


O risco está mais associado à atividade da doença do que ao uso de medicações. Portanto, manter a remissão é o principal objetivo terapêutico.

2. Fatores Relacionados ao Bebê

2.1 Eventos Adversos Fetais e Neonatais

A exposição intrauterina a medicamentos para DII, especialmente anti-TNFs, pode resultar em baixos níveis da droga circulando no recém-nascido nos primeiros meses de vida. No entanto, os estudos disponíveis não mostraram aumento substancial de malformações congênitas, atraso no desenvolvimento ou infecções graves a longo prazo em crianças expostas a essas terapias, quando comparadas à população geral.

Eventos adversos mais frequentes:


– Prematuridade (associada à atividade da doença)

– Baixo peso ao nascer

– Internações neonatais de curta duração

– Transferência placentária de anticorpos monoclonais com potencial risco teórico de imunossupressão transitória, mas sem aumento documentado de infecções graves.

Não há evidência de aumento de doenças autoimunes ou problemas cognitivos a longo prazo.

2.2 Vacinação do Recém-nascido

– Vacinas inativadas: podem ser administradas normalmente.
– Vacinas de vírus vivos atenuados (ex: BCG, rotavírus): devem ser evitadas nos primeiros 6 meses em recém-nascidos expostos a biológicos durante o terceiro trimestre, especialmente infliximabe e adalimumabe.

Conclusão

O manejo adequado da gestação e lactação em pacientes com DII requer conhecimento detalhado sobre segurança medicamentosa, riscos materno-fetais e estratégias de prevenção. A manutenção da remissão da doença continua sendo o fator isolado mais importante para um desfecho obstétrico e neonatal favorável.

Quer saber mais?

  1. Mahadevan U, Torres J, Siegel CA, et al. Management of Infants Born to Pregnant Individuals With Inflammatory Bowel Disease: A Clinical Practice Update From the AGA. *Gastroenterology*. 2025;168(6):1007-1024.e6. doi:10.1053/j.gastro.2025.03.002
Camilla Almeida M Helfenberger Medical Writer
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